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Duas Comédias (Um Filho e Vingança de Antero)
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O Último a Rir (Vingança de Antero) - Excerto


O ÚLTIMO A RIR foi escrito em 1995 para um único actor que encarna 15 personagens. Está publicado com o título Vingança de Antero ou Boda Deslumbrante em Duas Comédias, Relógio d´Água, 1996. Em sucessivos quadros conta-se a história de um casamento. Através dos monólogos do noivo, do funcionário da Conservatória, do motorista da limusina, do padre, do primeiro marido da noiva, do amigo do pai da noiva, do dono da frutaria, do operário na rua, do padrinho do noivo, do pai da noiva, do pai do noivo, do ex-namorado da noiva, do porteiro do Palace Hotel, do irmão do noivo e do polícia da esquadra onde tudo fatalmente acaba, reconstroem-se a história das personagens e as peripécias da boda.

15 PERSONAGENS PARA UM ACTOR
TEODORO, O NOIVO
O FUNCIONÁRIO DA CONSERVATÓRIA
O MOTORISTA DA LIMUSINA
O PADRE
ANTERO,O PRIMEIRO MARIDO
O AMIGO DO PAI DA NOIVA
O DONO DA FRUTARIA
O OPERÁRIO
PEDRO ,O PADRINHO DO NOIVO
AFONSO, PAI DA NOIVA
O PAI DO NOIVO
HOMERO, O EX-NAMORADO DA NOIVA
O PORTEIRO DO PALACE HOTEL
FREDERICO, O IRMÃO DO NOIVO
O POLÍCIA

O NOIVO
O Noivo é um personagem completamente auto-centrado e concentrado. É um homem contido, rígido, hiper-controlado e metódico, de que apenas se apercebe o pânico. Fala devagar. Está na esquerda baixa diante de um espelho de corpo inteiro, de calças listradas e fraque. À sua direita, a mala de viagem, fechada, pronta para a lua-de-mel, em cima de uma cadeira. Á direita, uma porta fechada. Endireita os ombros, abotoa o fraque, olha-se atentamente ao espelho, desabotoa o fraque; endireita os ombros, abotoa o fraque, olha-se a três quartos no espelho, desabotoa o fraque; repuxa os ombros, tenta olhar para as costas do fraque, abotoa, volta a desabotoar.

O NOIVO - (Retira do bolso das calças um pedaço de papel, lê baixo) Secador, protector solar, corta-unhas, meias, champô, roupão de praia, lenços de papel, creme de barbear, três camisas de manga curta,óculos de sol, três pólos, três T-shirts. Mas que confusão! Isto não está por ordem!... (dirige-se para a mala, abre-a, verifica) Portanto: champô, secador, escova de cabelo, máquina de barbear, creme de barbear, lâminas, loção para depois... (continua, baixo) parece-me que está tudo.... toalha de praia,calções de banho, dois pares, protector solar, sapatos de ténis, o soro para a mordedura de cobra levo no bolso das calças... (Pausa. Fica a olhar para o interior da mala) Não levo o secador de cabelo, ela deve levar o dela, vão dois secadores, não faz sentido... (Abre um estojo de barba, espreita lá para dentro) Álcool, mercurocromo, pensos rápidos, repelente, mais um soro para a mordedura de cobra. (Suspira. Repõe o estojo, fecha a mala, vai ao espelho) Assim ela leva o secador dela e eu deixo ficar o meu... (Vai ao espelho. Abotoa o fraque, desabotoa, abotoa, calmo, em pose; depois, de repente) Mas também que raio de idéia, o Pantanal! A lua-de-mel no Pantanal! Isto só a mim! Destino de aventura! Exótico, excitante, a Natureza em toda a sua pujança! Rastejantes por todos os lados! Jacarés, tamanduás, cobras to tamanho de comboios! Mas que raio de ideia! Por que é que não se vai para Nova Iorque, ou Roma, ou Paris, como toda a gente? Não, tem de se ir beber água inquinada, apanhar febres malignas, correr perigos na Amazônia! É só para me criar problemas... (Olha de novo para o espelho, acalma-se, respira fundo) Tem de ser. Tem de ser. A Lenita é uma mulher extraordinária. Uma força, uma energia... é uma mulher maravilhosa. Extraordinária. (Muito sério, para o espelho, silabando) Eu amo-a. (Pausa) Põe-se a fazer aquele beicinho, toda amuada, "nunca fazes nada do que eu quero, vamos ser infelizes, já sei que vou ser infeliz contigo, não gostas nada de mim, é só desta vez que vamos ao Pantanal"... Espero bem que seja só desta vez... Da próxima vez é capaz de ser a faixa de Ghaza, a Bósnia-Herzegovina, o deserto de Gobi... (Anda apressadamente para a direita, abre a porta, chama) Amélia! Oh, Amélia! (Para si) Vamos lá ver se não me esqueço de nada (Retira do outro bolso das calças mais um pedaço de papel, e lê) Passaporte, bilhete de identidade, carta de condução, carta verde, número de contribuinte, multibanco, visa, american express... Olha, não levo o número de contribuinte, já vou carregado de cartões, para que é que eu preciso do número de contribuinte no meio do Pantanal?... (Retira do bolso outro pedaço de papel, lê, para si) Telefones... Tia Helena, três cinco um dois um três nove sete... (A Amélia chegou e ele responde) Vai chover? Isso logo se vê, agora não posso. (Distraído, outra vez a mirar-se ao espelho) Ai, é? Dá sorte? Oh, Amélia, diz-me lá se cai bem aí atrás. Não consigo ver. Por mais que me torça, não consigo ver atrás... e se me torço, claro, não cai bem... (Irritado) É que toda a gente vai ver como é que cai, menos eu, já reparaste? Quer dizer, vou estar o tempo todo de costas para toda a gente e não consigo ver se cai bem atrás! (Com o fraque abotoado, põe-se muito direito em frente ao espelho) Está bom? Não estou nada em sentido, estou normal, estou direito... Eu tenho as costas direitas, esta é a minha posição normal... que, aliás, é correcta... correctíssima... Uma posição de atleta. Achas bom? Olha as abas... Eu sinto-o torto. Sinto que repuxa aí do meu lado direito. Sinto-o ponta acima, ponta abaixo. (Depois desabotoa) E assim? Uma desgraça... Achas bom? Ai telefonou? Quem? (Retira do bolso interior do fraque uma nova lista) Tenho de agradecer, já está na lista. É o terceiro da lista. Mas agora não posso, tenho mais em que pensar. (Pausa, continua a olhar-se ao espelho; impacienta-se) Não, é que vou estar de costas o tempo todo, para toda a gente, é importante que... e só eu é que não vejo.... vê lá se as abas estão ao mesmo nível... Não pode estar ponta acima, ponta abaixo, ainda por cima aquilo é uma gente... exigente... Ora, tu sabes lá... bom, deixa... está bem, vai lá embora... olha, e o cabelo? (passa a mão no cabelo atrás) como é que achas o cabelo? Está bom? Não arrebita aí atrás, em cima? Normalmente arrebita, nunca consegui dominar isso... eu sei que temos tempo... (abotoa o fraque, olha-se, desabotoa, abotoa, diz para si, irritado) Eu sei que temos tempo... também era só o que faltava, levar o fraque todo torto, ainda por cima chegar atrasado...

in Duas Comédias, Relógio d´Água, 1996

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